Adestramento de cães, é realmente necessário?
Para que esta pergunta seja respondida, primeiro precisamos entender a relação homem/cão.
Quando observamos a história desta relação que remonta há séculos, percebemos que pela manipulação, através de cruzamentos seletivos e contínuos, o homem conseguiu modificações sistemáticas na variação das formas, tamanhos, cores e principalmente modificação no temperamento dos cães, evidenciando os objetivos daqueles que eram os responsáveis por estas modificações. Evidente, que nesta primeira fase, os cruzamentos não tinham como objetivo a completa domesticação do cão como ocorre hoje. Assim, como ocorreu no império romano, onde provavelmente se iniciaram os cruzamentos sistemáticos com o objetivo de ter cães de serviço.
Hoje, sabemos que uma grande parte dos cães existe ara preencher necessidades humanas tais como: companhia, afeto e carinho. É neste aspecto que se torna relevante uma análise mais detalhada da relação homem/cão.
Uma grande parcela dos donos de cães enxerga seus animais como membros de suas famílias, são capazes de colocá-los na cama para dormir e até à mesa para comer. Aos olhos desses donos os seus cães são como “filhinhos” que devem ser mimados com todo o luxo que o dinheiro puder pagar. Mas é neste ponto que reside a grande diferença entre a interpretação que fazemos dos cães e a que os cães fazem de nós. Vejamos agora como é esta relação através da ótica do cão e quais suas conseqüências.
Os cães assim como os seres humanos são animais sociais, ou seja, vivem em uma estrutura de grupo, mas que sofreu modificações a partir da domesticação imposta pelo homem. Nesta estrutura de grupo, denominada matilha, é que acontecem as interações sociais relevantes para a construção das relações que irão perdurar por todo o tempo de convivência entre cão e dono. Dentro da matilha, existe uma ordem social que é estabelecida de acordo com o status social que cada membro tem dentro desta matilha.
O status social é conseqüência da relação dominante/subordinado que cada membro consegue dentro da matilha, chamado de hierarquia. Chegamos, portanto no ponto mais importante dentro do contexto social, que é a hierarquia dentro da matilha. Assim se um dono de cão quer ser respeitado por seu animal, obviamente que este animal deve ver seu dono como um membro hierarquicamente superior dentro da matilha, e como conseguir isto? Através de uma educação adequada, desde tenra idade e também do adestramento. Isto porque o adestramento coloca claramente nesta relação quem é dominante e quem é subordinado. Quando o dono do cão emite uma ordem, ou seja, um comando como, por exemplo, DEITA, está sendo estabelecido quem manda e quem obedece, deixando claro naquele momento, quem dentro da matilha é de classificação superior. Uma grande parte dos problemas de comportamento está inserida neste contexto.
Os donos de cães não têm conhecimento necessário para avaliar o real temperamento de seu cão. Na verdade a maioria conta com a sorte na hora de adquirir um cão, pois não fazem uma avaliação prévia do possível temperamento do filhote. E se esta pessoa comprar um filhote com temperamento dominante, com certeza a relação poderá estar comprometida se não houver uma compatibilidade de temperamento entre dono e cão.
Existem muitos relatos de donos de cães que já levaram mordidas de sues próprios animais, e uma parcela considerável são de cães de pequeno porte. A solução passa por uma educação adequada e algumas vezes por um adestramento, para que fique claro para o animal quem é o líder dentro da matilha. Por isto o adestramento deve ser sempre acompanhado pelo dono do cão.
Cássio Di Pietro
Adestrador de Cães